Você já sentiu uma dor de cabeça tão intensa que parecia impossível seguir com suas tarefas diárias? Se essa dor vem acompanhada de sensibilidade à luz, ao barulho ou náuseas, é possível que você esteja enfrentando uma crise de enxaqueca, uma das condições neurológicas mais comuns — e também mais incapacitantes — do mundo.

A enxaqueca vai muito além de uma simples dor de cabeça. Reconhecê-la e procurar orientação médica pode fazer toda a diferença na sua qualidade de vida.

 

🧠 O que é a enxaqueca?

A enxaqueca é uma doença neurológica crônica que provoca crises recorrentes de dor de cabeça. A dor costuma ser pulsátil, de intensidade moderada a forte, e frequentemente localizada em um dos lados da cabeça, embora possa ocorrer dos dois lados.

Mas a enxaqueca não é “só uma dor de cabeça”. Ela envolve uma série de alterações no funcionamento do cérebro, especialmente em estruturas profundas como o hipotálamo, o tronco encefálico e o chamado sistema trigêmino-vascular — um circuito de nervos e vasos sanguíneos responsável pela percepção da dor na cabeça.

Durante uma crise, esse sistema é ativado de forma anormal, liberando substâncias inflamatórias e dilatando os vasos sanguíneos, o que contribui para a dor intensa. O hipotálamo, que regula funções como sono, apetite e ritmo circadiano, também participa do processo, o que explica por que muitas pessoas têm crises desencadeadas por estresse, falta de sono ou mudanças hormonais.

Esses mecanismos ajudam a entender por que a enxaqueca é uma condição tão complexa e incapacitante — não se trata apenas de um desconforto pontual, mas de um distúrbio neurológico com múltiplos fatores envolvidos.

Além da dor, as crises podem durar de 4 a 72 horas e vêm acompanhadas de sintomas como:

  💡 Sensibilidade à luz (fotofobia)

  🔊 Sensibilidade a sons (fonofobia)

  🤢 Náuseas e vômitos

  😵‍💫 Tontura

 

⏱️ Fases da crise de enxaqueca

A enxaqueca é um distúrbio neurológico que costuma seguir um padrão em fases, embora nem todos os pacientes percebam todas elas. Reconhecer essas etapas pode ajudar na identificação precoce e no tratamento mais eficaz da crise:

  1. Pródromo
    Algumas horas ou até dias antes da dor, o paciente pode notar sinais como irritabilidade, alterações de humor, bocejos frequentes, desejo por certos alimentos, rigidez na nuca ou dificuldade de concentração. Esses sintomas são reflexo de alterações iniciais no hipotálamo e outras áreas do cérebro.

 

  1. Aura (presente em cerca de 25% dos pacientes)
    Caracteriza-se por sintomas neurológicos temporários, geralmente visuais (como luzes, pontos brilhantes ou linhas em zigue-zague), mas que também podem incluir alterações sensoriais (formigamentos) ou dificuldade na fala. A aura geralmente dura de 5 a 60 minutos e precede a dor.

 

  1. Fase da dor
    É a fase mais conhecida, quando surge a dor de cabeça propriamente dita, com características pulsáteis, de intensidade moderada a forte, geralmente unilateral. Costuma vir acompanhada de náuseas, sensibilidade a luz e ao barulho. A ativação do sistema trigêmino-vascular e a liberação de substâncias inflamatórias no cérebro estão por trás desses sintomas.

 

  1. Pósdromo
    Após a dor, muitos pacientes relatam sensação de cansaço extremo, dificuldade para pensar, sensibilidade residual à luz ou ao som, ou ainda um leve desconforto na região onde a dor predominou. É como se o cérebro precisasse de tempo para se "recuperar" da crise.

 

🔍 Tipos mais comuns de enxaqueca

1. Enxaqueca sem aura

É a forma mais comum, representando cerca de 75% dos casos. A dor se instala de forma gradual e não apresenta alterações da visão, de sensibilidade e ou de fala associados.

 

2. Enxaqueca com aura

Caracteriza-se pela presença de sintomas neurológicos transitórios que precedem ou acompanham a dor. Os sintomas mais comuns são visuais (como luzes piscando, pontos brilhantes ou linhas em zigue-zague), mas também podem incluir formigamento em um lado do corpo, dificuldade para falar ou sensação de dormência.

Esses sintomas costumam durar de 5 a 60 minutos e são totalmente reversíveis. No entanto, é essencial que esses sinais sejam avaliados por um neurologista, pois outras condições neurológicas, como crises epilépticas, ataques isquêmicos transitórios (princípio de AVC ou derrame) ou distúrbios do processamento visual, podem se manifestar de forma semelhante.

🔺 Além disso, a identificação da aura tem implicações importantes para a saúde da mulher: pacientes com enxaqueca com aura têm um risco aumentado de eventos cerebrovasculares, como o AVC isquêmico, especialmente quando fazem uso de anticoncepcionais hormonais combinados (estrogênio + progesterona). Por isso, em mulheres com esse tipo de enxaqueca, o uso desses contraceptivos deve ser evitado, sendo necessário avaliar alternativas mais seguras.

 

O que pode desencadear uma crise de enxaqueca?

Embora a enxaqueca tenha origem multifatorial, envolvendo fatores genéticos e alterações na excitabilidade do sistema nervoso central, alguns gatilhos são reconhecidamente associados ao início das crises:

  🧠 Estresse emocional

  🍽️ Jejum prolongado

  🛌 Alterações no sono

  ♀️ Oscilações hormonais

  💡 Estímulos sensoriais intensos (luz forte, cheiros, barulho)

A identificação desses gatilhos é fundamental para a prevenção das crises e pode ser feita por meio de um diário de cefaleia.

 

Quando procurar um neurologista?

É comum que pessoas com enxaqueca convivam com a dor por anos, recorrendo a analgésicos de forma recorrente. No entanto, o uso excessivo desses medicamentos pode piorar o quadro, levando à chamada cefaleia por uso excessivo de medicação.

Procure um especialista se:

·        As crises são frequentes (mais de 4 dias por mês)

·        A dor interfere na rotina

·        💊 Os medicamentos não funcionam mais

  • ⚠️sintomas neurológicos associados (formigamentos, perda de visão, fala arrastada)
  • A dor surge de forma súbita e muito intensa

 

💡 Existe tratamento eficaz?

Sim. O tratamento da enxaqueca deve ser individualizado e pode incluir:

  • Medicamentos abortivos: para interromper a crise (como triptanos, anti-inflamatórios e antieméticos)
  • Tratamento preventivo: indicado quando as crises são frequentes ou muito incapacitantes, usando medicações como betabloqueadores, antidepressivos, anticonvulsivantes ou os modernos anticorpos monoclonais anti-CGRP, desenvolvidos especificamente para enxaqueca
  • Abordagens não farmacológicas: regulação do sono, alimentação equilibrada, redução do estresse, atividade física regular
  • Técnicas complementares: acupuntura, biofeedback, meditação, terapia cognitivo-comportamental
  • Toxina botulínica tipo A: eficaz em casos de enxaqueca crônica (≥15 dias de dor por mês, sendo ≥8 com características de enxaqueca)

 

🙌 Você não precisa conviver com a dor

A enxaqueca é uma condição tratável — e quanto antes for diagnosticada, melhor a resposta ao tratamento. Com o acompanhamento especializado, é possível reduzir a frequência e intensidade das crises, melhorar o desempenho no trabalho, a convivência social e, acima de tudo, a qualidade de vida.

👉 Se você se identificou com os sintomas descritos, agende uma consulta com um neurologista. A dor não precisa fazer parte da sua rotina.

 

Dr. Júnior Vasconcelos
Neurologista – CRM 219464 | RQE 124426
Especialista no diagnóstico e tratamento de dores de cabeça