Imagine uma dor de cabeça tão intensa que leva uma pessoa a se contorcer, chorar ou até gritar de dor. Uma dor que aparece de forma súbita, sempre no mesmo lado da cabeça, em horários semelhantes, acompanhada de lacrimejamento, nariz entupido e inquietação intensa. Esse é o retrato da cefaleia em salvas, considerada por muitos especialistas como a pior dor que o ser humano pode sentir.

Embora não seja tão comum quanto a enxaqueca, essa condição é extremamente incapacitante e devastadora. Durante uma crise, é comum que o paciente não consiga se concentrar, trabalhar ou até mesmo permanecer parado. A dor é descrita como insuportável. Tão intensa que, em muitos casos, já foi chamada de "cefaleia suicida" — pois alguns pacientes chegam a ter pensamentos suicidas durante as crises, devido ao nível extremo de sofrimento.

Por isso, conviver com a cefaleia em salvas sem tratamento adequado não é apenas uma questão de dor física — é uma ameaça direta à saúde mental e à qualidade de vida.

Neste artigo, você vai entender o que é essa doença, como ela se manifesta e como buscar ajuda médica especializada.


🧠 O que é a cefaleia em salvas?

A cefaleia em salvas é um tipo de cefaleia primária, ou seja, não é causada por outra doença estrutural, embora isso sempre deva ser investigado (como veremos adiante). Ela pertence a um grupo chamado de cefaleias trigêmino-autonômicas, caracterizado por dores intensas associadas a sintomas como lacrimejamento, congestão nasal e vermelhidão ocular — geralmente no mesmo lado da dor.

A dor surge em crises abruptas, com duração entre 15 minutos a 3 horas, podendo ocorrer até oito vezes por dia durante o período ativo da doença — chamado de “salva”.


🔥 Sintomas típicos da cefaleia em salvas

Os sinais clínicos são bem característicos:

  • Dor extremamente intensa, unilateral, ao redor ou atrás de um dos olhos
  • Lacrimejamento e vermelhidão ocular
  • Nariz entupido ou escorrendo do mesmo lado da dor
  • Inchaço ou queda da pálpebra
  • Sudorese na testa ou face
  • Sensação de inquietação intensa (o paciente não consegue ficar parado)

As crises surgem em períodos cíclicos (salvas), que podem durar semanas a meses, seguidos por intervalos sem dor (remissão). Algumas pessoas, no entanto, desenvolvem uma forma crônica, com crises frequentes e sem remissões definidas.


⏱️ Ritmo e padrão das crises

As crises geralmente acontecem:

  • Sempre no mesmo horário do dia ou da noite (muitas vezes durante o sono)
  • Em épocas específicas do ano, como mudanças de estação

Esse padrão sugere a participação do hipotálamo, estrutura cerebral envolvida no controle do ritmo biológico (ciclo circadiano), sono e dor.


👤 Quem pode ter cefaleia em salvas?

Embora qualquer pessoa possa ser afetada, o perfil mais comum inclui:

  • Homens e mulheres entre 20 e 50 anos
  • Histórico de tabagismo
  • Predisposição genética (apesar de muitos não terem familiares com o mesmo quadro)

Mas é importante lembrar: idosos e até crianças também podem apresentar a doença, ainda que menos frequentemente.


Diagnóstico: atenção aos sinais e à investigação

Apesar de possuir um padrão clínico bastante característico, a cefaleia em salvas ainda é frequentemente subdiagnosticada ou confundida com outras condições, como:

  • Sinusite
  • Enxaqueca com aura
  • Neuralgia do trigêmeo
  • Glaucoma agudo

Esse erro diagnóstico atrasa o tratamento adequado e prolonga o sofrimento do paciente.

Além de uma avaliação clínica detalhada, é fundamental que o neurologista solicite exames de imagem, como ressonância magnética do crânio e órbita, para excluir causas secundárias, como:

  • Lesões expansivas na região do hipotálamo
  • Aneurismas
  • Tumores na base do crânio
  • Alterações inflamatórias na órbita

Mesmo sendo uma cefaleia primária na maioria dos casos, é essencial garantir que nenhuma causa estrutural esteja por trás das crises.


💊 Tratamento: o que funciona?

O tratamento da cefaleia em salvas é dividido em:

1. Tratamento das crises agudas (alívio imediato)

Devido à rapidez e intensidade da dor, o tratamento precisa ser efetivo e de ação rápida. Os mais utilizados são:

  • Oxigênio a 100% por máscara facial, em fluxo alto (12–15 L/min por 15–20 minutos)
  • Sumatriptano injetável ou em spray nasal

Importante: analgésicos comuns não funcionam para esse tipo de dor.

2. Tratamento preventivo (interromper o ciclo de salvas)

O objetivo é reduzir a frequência, duração e intensidade das crises durante o período de salvas:

  • Verapamil (bloqueador de canal de cálcio) é a primeira escolha
  • Anticorpo monoclonal
  • Corticosteroides orais em curto prazo para controle rápido
  • Outras opções: lítio, topiramato, melatonina
  • Bloqueios anestésicos de nervos pericranianos, como o bloqueio do nervo occipital, podem ser úteis em casos selecionados e são bem tolerados

O acompanhamento com neurologista especializado em cefaleias é fundamental para monitorar efeitos, ajustar doses e prevenir complicações.


🚨 Quando procurar ajuda?

Se você apresenta crises de dor intensas, unilaterais, com lacrimejamento, nariz entupido e agitação durante os episódios — especialmente se elas ocorrem em padrões repetitivos e cíclicos — procure avaliação neurológica o quanto antes.

Quanto mais cedo o diagnóstico correto for feito, mais chances de controlar a dor com segurança e eficácia.


🧩 Convivendo com a cefaleia em salvas

Embora não exista cura definitiva, existe tratamento eficaz. Muitos pacientes conseguem passar longos períodos sem crises quando bem acompanhados. Além das medicações, alguns cuidados adicionais fazem diferença:

  • Evitar o álcool durante as salvas (pode disparar uma crise quase imediata)
  • Dormir bem e com rotina regular
  • Evitar tabagismo e outras substâncias vasodilatadoras
  • Reconhecer sinais de início de uma nova salva para agir precocemente


🙌 Você não está sozinho

A cefaleia em salvas pode ser devastadora, mas você não precisa conviver com essa dor em silêncio. O sofrimento é real, validado pela ciência, e existem caminhos eficazes para o alívio e o controle da doença.

Com acompanhamento especializado e um plano de tratamento individualizado, é possível retomar a qualidade de vida e afastar o medo constante das próximas crises.


Dr. Júnior Vasconcelos
Neurologista – CRM 219464 | RQE 124426
Especialista no diagnóstico e tratamento de dores de cabeça